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domingo, 6 de novembro de 2011

RESULTADO do concurso FCDOB

Conheça os vencedores da Edição 2010-2011

Foram inscritos 323 contos e 38 ilustrações de praticamente todos os estados, além daqueles vindos de brasileiros residentes na Argentina, Estados Unidos, Japão, Portugal e Suíça.
Ao final de 3 meses de deliberações, a Comissão Julgadora escolheu os 21 vencedores.



RESULTADO DO CONCURSO FC DO B - FICÇÃO CIENTÍFICA BRASILEIRA
PANORAMA 2010-2011

VENCEDOR NA CATEGORIA ILUSTRAÇÃO

Carlos Reno ("Curumins")

VENCEDORES NA CATEGORIA CONTO

Alexandre Lobão ("Asas") 
Anderson Santos ("No Passado") 
Antonio Junior ("Obsoleto") 
Antonio Bórgia ("Dialética da Perfeição") 
Augusto Guimarães ("O Patriarca") 
B.B. Jenitez ("Demiurgo") 
Carlos Abreu ("Como Jogar Contra Adversários mais Fortes") 
Carlos Sautchuk ("A Intervenção")
Chico Pascoal ("Tiangwá e os Pequenos Guerreiros de Yoomandu-Açu")
Denis Winston Brum ("Imperfeito")
Gustavo Coelho ("O Sexto Círculo")
Gustavo Rimoli ("Apotine Gratinado")
João Paulo Vaz ("A Inimaginável Materialização de Samira")
Marcel Breton ("Memorial")
Mozart Almeida ("Recomeço")
Paulo Eduardo Mauá ("Acorda e Vem Ver o Luar")
R.Lovato ("Nulla in Mundo Pax Sincera")
Raul Habesch ("Resíduos Atômicos e as Falhas nos Microprocessadores Weltall")
Ronaldo Brito Roque ("Controle Remoto")
Rubem Cabral ("Nanovidas")


Quer ler o conto "No Passado"?





No Passado
Anderson Santos

1.

Constantemente acordo no passado. Ok, eu sei que essa talvez não seja a melhor maneira de me apresentar, mas é melhor que saibas disso antes de qualquer coisa, pois assim terás a opção de não me ouvir mais. Se desejares ouvir, porém, garanto que os últimos acontecimentos da minha existência vão, se não te surpreender, te dar assunto para algumas conversas de bar, quando estiveres com amigos bebendo uma... O que é mesmo que vocês bebem neste século? ... Cerveja... Era o que eu estava bebendo, não é? Mas não com amigos. Sozinho. Enfim, minha história pode, pelo menos, virar assunto de boemia sobre coisas estranhas da vida. Me ajuda a levantar?
  
2.

Sim... Estou bem. Vamos adiante.
Não é bem acordar e é sim acordar. O que tu conheces por reencarnação, eu conheço por reprogramação. A alma não é algo tão etéreo para entrar e sair de corpo em corpo, existência a existência. Ela é palpável, moldável, composta de inúmeras e incontáveis partículas que se agarram às células em formação. É doloroso. A alma está em cada célula, em partículas que a humanidade só pode imaginar, em cordas que tecem uma trama que tem muito mais do que três dimensões. E há um Deus, um senhor da vida e da morte, e um grupo de almas que nos recebem após um ciclo, tratam e encaminham para uma nova existência. Alguns conceitos da doutrina espírita estão bem acertados. Nem todos. Quando as almas voltam para o centro de reprogramação a fim de receber suas novas missões, recebem um composto que reativa as partes desativadas da memória, e tornam a se lembrar de tudo que viveram em suas outras vidas. Após receber a nova missão, recebem um novo composto que mais uma vez desativa as memórias das vidas anteriores, e vivem existências sempre diferentes, para experimentar uma nova programação.
Nem todas as memórias se deixam apagar. Sabe aquele prazer que tu sentes ao comer uma fruta exótica do oriente, como se aquele sabor fosse o par perfeito para as tuas papilas gustativas? São as memórias da tua alma, da parte da tua alma que se moldou nas células da tua língua e reconhecem o sabor, de outra vida, de outra programação. É assim com cheiros e cores, sensações e sons.
  
3.

Meu nome? Hoje é Andros, mas já foi Nazli, Mitsuo, Carlton, Pietra, Guadalupe, Jafet, Drake, Aghanashini e Pocema. Da última vez foi Siren.
[...]
O que há de errado comigo? O composto que deveria desativar minhas memórias durante toda minha nova missão não funciona em mim. Dessa vez me aumentaram a dosagem, e eu só vim a me lembrar de tudo agora, aos trinta e sete anos, no chão de um bar, empapado de cerveja, e no passado. No meu passado. No chão desse bar.
  
4.

Devagar com as perguntas. Primeiramente, não, as reprogramações podem se dar a qualquer período do fluxo temporal. Algumas coisas já aconteceram e foram tão graves, que não há mais como mudar o curso da história. Algumas existências são tão insignificantes que não podem alterar nada. É por isso que sou um perigo. Porque me lembro do que não deveria lembrar. Tentaram restringir minhas reencarnações para depois dos livros de história, mas acabaram por se dar conta de que isso não seria necessário. Quem acreditaria em mim? Na maioria das vezes acabo sendo queimado como bruxa, preso como louco, morto como herege. Saber não é uma arma tão poderosa assim. Eu já estive alguns mil anos à frente de onde estamos hoje. O mundo não acabou em 2012, nem em 2016, nem no ano 3000, e é melhor que não saibas até onde já chegamos, pra tua própria sanidade. Mas cheguei a ver a vida sob cúpulas em um mundo devastado, uma vida aonde a população mundial não chega a meio bilhão de habitantes, e onde feras cujos corpos são compostos por mais arsênio do que fósforo e carbono vagueiam numa atmosfera pútrida respirando facilmente o ar que nos mataria. Difícil acreditar que podes reencarnar no passado? Uma resposta: O tempo não é uma linha reta.
  
5.

Sobre as minhas reprogramações, há algumas constantes da viagem no tempo que se aplicam a elas. Eu não conseguiria matar o Hitler nem se reencarnasse na forma da mãe dele. Claro que essa reprogramação não está vaga. Mas preciso que entendas que o resto do universo, ao ser reprogramado, será colocado em um papel e o desenvolverá. Comigo é diferente. Eu jogo o jogo, desempenho meu papel até o momento em que o composto para de fazer efeito, e então me lembro. Da primeira vez, eu mesmo achei que estivesse louco. Nas vezes seguintes – ou anteriores, dependendo do ponto de vista – comecei a me adaptar. Interessei-me cada vez mais por história, queria conhecer tudo para o caso de um dia acordar em algum lugar e saber de antemão o que estava por vir. Em uma das vezes eu tentei mudar o destino, tentei impedir as mortes de uma tragédia natural. Fui preso como herege, fui expurgado e mandado para longe. O terremoto matou mais de duzentos e trinta mil pessoas. Eu vivi mais trinta anos, decidido a nunca mais intervir.
  
6.

Estou falando no masculino. Estou num corpo de homem. As memórias se misturam. Já fui mulher e isso não me incomoda. Quando acordo, quando me lembro, perco o desejo. Almas não têm sexo, não têm desejo, e eu acordei.
E eu me lembro desse olhar. Esse no teu rosto. Ele acontece todas às vezes. Quando acordo, quero contar, quero conversar, e quando me dou conta já falei mais do que deveria, e as pessoas me olham com esse olhar. Um misto de pena e deboche e medo.

7.

Eu não vejo o futuro. Eu já vi o passado. Várias vezes. Não sei dizer os números da mega-sena. Não seja tão descrente. Eu sei que tu já chamaste a ambulância, e que só estás me fazendo companhia até ela chegar. Então me ouça. Se eu contar para ti, vou perder o desejo de contar para os enfermeiros e médicos, e assim não serei internado, tido como louco, encarcerado. Podes me ouvir?
Quanto a tua segunda pergunta, não sei o que é essa tal de Matrix, e não deve ter sido um filme assim tão bom para não falarem dele no futuro. Sabias que no século XXX ainda se fala de filmes como Laurence da Arábia e A Lista de Schindler. Em que ano nós estamos mesmo? 99? Uma coisa que eu posso te dizer ao certo é que não vai haver bug do milênio. Outra é que o Brasil vai ser pentacampeão em 2002. Sim. Com o Felipão e contra a Alemanha.
  
8.

Já ouviste falar em dores fantasma? Quando alguém perde uma parte do corpo as outras partes da alma ainda procuram aquelas células que se separaram. Tudo se reencontra depois, pois a alma é inteligente, mas essas sensações continuaram a existir no futuro quando as partes robóticas começaram a substituir partes do corpo. Mas não foi isso que tu perguntaste, não é?
[...]
Sim... No futuro as pessoas vão poder ter corpos robóticos, mas só nos casos de amputações. Com as técnicas de longevidade, e a ausência de falhas congênitas nos planos de concepção, por que cargas d’água alguém iria querer um corpo robótico? Isso é bem século XX mesmo.
[...]
Não! Não existe teletransporte humano. Pelo menos não no futuro que conheci. E enquanto as pessoas não entenderem as propriedades da alma, isso não acontecerá. Dividir partículas e fazê-las atravessar o continuum espaço-tempo é uma coisa. Dividir a alma não é assim. Já te falei nas cordas, não é? Elas tecem uma trama... a trama da vida... e essa trama é indivisível até onde sei. A máquina que é usada para transportar matéria não viva foi usada por um tempo como pena de morte. O corpo sai sem consistência do outro lado. Matéria orgânica e só. Mas as utilidades do transporte de corpos não vivos facilitou o desenvolvimento do planeta. Pelo menos por um tempo. As estradas não precisavam mais de caminhões pesados, diminuiu o transporte por mar, por ar, por tudo.
[...]
Carros voadores? Também não, e a partir do momento em que se passou a viver em cúpulas, o transporte passou a ser unicamente subterrâneo. O mundo nunca se tornou um desenho dos Jetsons. Pelo menos se localizou vida em outros planetas. Nenhuma a base de carbono. Nada que conheçamos como vida. Nada que nossos olhos e ouvidos pudessem perceber hoje. Eles vivem em outros espectros.
[...]
Jesus Cristo não voltou.
  
9.

As noções terrenas não condizem com o mundo dos espíritos. Aquilo sim é um mundo tecnológico. Lá é o único lugar onde espíritos de todos os planos circulam juntos, trocam ideias. Certa vez conheci um ser de um plano onde os corpos são o que aqui conhecemos como gasosos, mas para eles aquilo é sólido, firme, rígido. Nós somos formados por carbono. Eles por Neônio. Não é incrível? Os selecionadores espirituais não erram nada. Encaminham as almas para os corpos certos, no momento certo, no lugar certo. Só eu tenho dado errado. Sou uma confusão. Quando fui Nazli, acordei em plena Arábia falando sobre o futuro, e sobre como todas as mulheres são tratadas como deusas, adoradas, respeitadas pela propriedade única de dar a luz. As cientistas no futuro já descartaram o homem na reprodução. Não serias necessário. Seria possível um mundo povoado apenas por mulheres. As alterações genéticas lhes conferiram força, beleza, juventude, velocidade. Ainda são gerados homens apenas pelo respeito religioso. Após a grande revolta neocatólica do século XXVII, todas as questões de gênero e sexualidade foram unificadas. A única lei é o amor. Não adianta me olhar com essa cara de desdém e nojo. Como eu te disse, eu acordo assexuado.

10.

99 né? Euro, Bill Clinton, Timor Leste independente. No último dia do ano os americanos vão passar o controle do Canal do Panamá para o Panamá. Quando vires as notícias, vais lembrar-se de mim.
[...]
Eu sei, eu sei que tem muita coisa que queres saber, ou tudo o que queres é que eu me mantenha falando e acordado. Eu era a última pessoa no bar? Engraçado. Mas não acho que eu possa te contar muito mais coisas.
Eu gostaria de poder desativar o composto aplicado nas células da tua alma. Te acordar e te possibilitar ver com os próprios olhos tuas muitas vidas, tuas muitas histórias.
Não sei. Não posso ou não saberia. Talvez teu corpo não aguentasse tantas memórias voltando de uma única vez.
Veja bem. Eu me lembro de tudo! Sabes aquela história de só usarmos 10% do cérebro? É mentira! Usamos todo, uma parte de cada vez, e quando estamos usando uma parte, o composto que nos faz esquecer carrega as memórias fechadas para outra parte do cérebro, uma que não esteja sendo acessada naquele momento. Comigo é como se essa proteção estourasse. Da primeira vez eu sangrei. Pelos olhos, pelo nariz, pelos ouvidos. A dor era insuportável. Hoje em dia eu apenas desmaio e acordo. Assim. E lembro. Eu me lembro da chegada. A trama de cordas dobrada infinitas vezes, colocadas em uma célula fecundada, se desdobrando, primeiro em duas, depois em quatro, depois em oito [...] isso mesmo, potências de dois. Amarrando-se no interior das células. A vida a se desdobrar.
É lindo, sublime e extremamente doloroso.

11.

Eu estou ouvindo os sons.
[...]
Não... Não da sirene da ambulância. Os sons deles. Pelo visto eles não vão me deixar aqui por muito tempo. Não dessa vez. Acho que dessa vez eu falei demais, ou para alguém que pode fazer alguma diferença. Seja como for, lembre-se do Canal do Panamá, e lembre-se, quando tiveres certeza, de dizer que as cordas não são fechadas, não são espirais. São tranças. Somos uma trama de tranças amarradas em todas as nossas células. Todas cheias de memórias, memórias de muitas vidas.
Eles escolhem. Eles escolhem onde vamos voltar, que missão cumpriremos. Somos um continue no jogo deles, um daqueles jogos em que se pode mudar de personagem ao morrer.
O segredo está nas cordas. Tranças. Lembre-se! TRANÇAS!

12.

Do Boletim do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência.

Homem, branco, identificado através dos documentos como Josué Figueiró, 42 anos, encontrado caído no chão de seu próprio estabelecimento, sozinho, provavelmente vítima de algum tipo de agressão. Nenhum sinal de arrombamento ou roubo no local. A vítima balbuciava a frase “ele virou três fios... como uma trança desfeita” em meio a outras como “Canal do Panamá” e “somos uma trança, não uma espiral”.
Encaminhado para EEG e TC, bem como acompanhamento psiquiátrico.
Sedado ao tentar agredir a equipe aos gritos de “salvem o homem do futuro... salvem o homem do passado!”.
Recebido pela ala psiquiátrica do HCPA em 25/10/99.

Um comentário:

  1. Eu acabei aqui, nessa página, por conta da publicação no FCdoB (Edição de 2009), queria saber mais sobre o conto "Nano" que achei ótimo. Adorei poder ler outro conto do autor e "Ah, que legal é sobre viajem no tempo!". Como será construído o artifício do qual se utilizará o personagem para subverter o espaço-tempo? Para minha decepção o autor segue em direção ao ponto de vista religioso, o que nunca é minha primeira expectativa. Não tenho nada contra, inclusive meus autores favoritos também já se utilizaram de narrativas semelhantes, Asimov, por exemplo.
    Bem, o fato é que assim que comecei a ler tive que engolir meus preconceitos e me deliciar com a bela construção de cenário/personagem a qual já tinha sido apresentado em "nano". Enfim, essa pequena "resenha" foi só pra preencher esse espaço de comentários que permanecia vazio e agradecer (mesmo que talvez nem venha a ser lido!) por disponibilizar sua obra e produzir conteúdo de tanta qualidade para os fãs de FC. Ventura! :)

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