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domingo, 25 de julho de 2010

LEIA AQUI O PRIMEIRO CAPÍTULO

I – A Batalha Final

1.

Até a escuridão tem o cheiro do demônio pensou Hector Szadkoski quando abriu a porta que dava para o porão da velha mansão. Faltavam apenas nove degraus.

Acionou o monóculo de visão noturna MUNOS OS1 Mk3, equipamento do exército brasileiro comprado de uma empresa de vigilância de redes de alta tensão, e as formas do ambiente ganharam a conhecida tonalidade verde esmeralda. Faltavam apenas oito degraus.

O porão havia sido construído para ser uma adega. O cheiro dos vinhos misturava-se ao cheiro de sangue e putrefação. A umidade dos dias e noites daquele março em Porto Alegre não contribuía com a taxa de respirabilidade do local. A fermentação do ar não lembrava nada que Hector já tivesse experimentado, mas com certeza reconheceria aquele cheiro no inferno no dia do juízo. Apanhou junto à cintura o crucifixo e a estaca feitos da madeira de um banco de igreja. Sete, seis.

Cinco. O degrau sob o pé esquerdo de Hector rangeu. Mesmo com o plano perfeitamente engendrado e seguro, o som enregelou-o por uma fração de segundo. Fadel, o jovem (e não se mantinham todos eles jovens?) escudeiro de Hinterholz, jazia morto na sala de jantar, e não mais poderia interrompê-lo. Em breve o processo de decomposição que levava todos os vampiros, anciões como Hinterholz ou servos como Fadel, deixaria apenas suas vestes no ambiente. Por hora, com um buraco de .45 entre os olhos vidrados, Fadel ficaria admirando o suntuoso lustre noir em ônix e ébano que pendia do teto, com um terceiro olho que finalmente se abre para a verdade. – Já estava morto em vida – pensou Hector. – Que o inferno o receba com a mesma compaixão que teve com cada uma das vítimas que seduziu para Hinterholz.

Quatro. Ninguém poderia interromper seu último movimento. Três.

Dois, um. O caminho a frente levava direto ao caixão onde o General, como era conhecido o vampiro Hinterholz, descansava. Hinterholz era o último ancião de seu clã, e no meio do porão, paralelo à escada, o esquife posto sobre colunas seria um alvo fácil para Hector.

- Alguns velhos clichês morrerão contigo, Último – murmurou Szadkoski enquanto passava a estaca para a mão do crucifixo.

Apanhou do bolso esquerdo um frasco e abriu-o, derramando seu conteúdo na base da escada. O aroma da mistura de água benta, sal grosso e alho atingiu seu olfato como um bálsamo. Faltava pouco agora. Muito pouco.

Com apenas três passos alcançou o leito do General. Canhoto, devolveu a estaca para a mão esquerda e estendeu a mão direita segura no crucifixo para a tampa do caixão.

Em um movimento rápido, o abriu.

2.

- Estou surpreso em ver que chegaste tão longe, Hector – disse Hinterholz com um ar que misturava falsa surpresa e zombaria. Seus olhos emanavam um misterioso calor hipnótico, e Hector, feito estátua, paralisou com o braço esquerdo suspenso no meio do movimento de arco que levaria a estaca ao coração do vampiro. Tentou falar, mas os lábios mal se moveram.

- Um triste fim teve meu escravo – continuou o General, que agora investigava a mente do pretenso algoz – surpreendido durante a refeição. A bala estava benzida, Hector? Sal grosso? Rezas de um pastorzinho qualquer? Ora. Desnecessário! Fadel serviu a mim como um humano, nunca sob controle. Não era um vampiro, ou um servo, mas um humano que desejou tanto se tornar um vampiro que me serviu na esperança que eu o abençoasse com a vida eterna. Um desses jovenzinhos jogadores de RPG e leitores de Rice e Vianco. Um peão humano. Diga-me, Hector, como te sentes tendo matado um igual?

Hector ainda não podia se mover, mas concentrava-se para que o General não chegasse fundo o suficiente em suas memórias. Hinterholz, sem perceber o esforço, desfez o elo mental e levantou-se do caixão como se flutuasse, postando-se frente a frente com seu caçador, numa mudança visível de papéis. Então se pôs a falar.

- Uma cruz Hector? Você sabe que é preciso fé para manejá-la contra um vampiro como eu? Sem fé ela é como qualquer objeto. Uma criança apontando seu bico contra mim faria mais mal, pois a fé que uma criança tem de que a chupeta pode afastar angústias, tristezas, solidão ou qualquer mal é muito maior do que a tua fé nesse objeto – e com um movimento tão rápido quanto cruel, a cruz foi reduzida a farpas pela mão branca de Hinterholz.

- Espere-me aqui – disse o General a uma presa imóvel – pois prestarei uma última homenagem a um homem que me serviu sem nada receber em troca. Espere, afinal não consigo comer nada logo que acordo – e com essa última frase riu, se virando em direção à porta sem perceber o leve sorriso que brotava no rosto quase sem expressão de Szadkoski.

- Três passos – pensou o caçador de vampiros, e preparou-se para a próxima jogada.

3.

Os passos de Hinterholz eram garbosos, decididos, e levemente femininos. Às costas, o manto que vestia movia-se com a suavidade de uma dança nobre, e, mesmo com a visão esverdeada pelo monóculo, Hector percebeu que não deixava pegadas ou rastros, tal a leveza com a qual se deslocava.

Por pouco tempo.

Ao pisar no primeiro degrau da escada o vampiro foi prontamente arremessado para trás, caindo com estrépito e espanto aos pés de seu caçador. Só libertou-se da surpresa causada pela cilada quando viu a estaca de madeira cortar o ar como um borrão em direção ao seu peito, sem tempo para qualquer movimento.

4.

Hector aguardou ansioso o contato de Hinterholz com a armadilha que deixara no degrau. Seus instintos o puseram em alerta para que, assim que o efeito hipnótico que o prendia feito um títere se desfizesse, pudesse cravar a estaca que carregava no peito da besta. Se Hinterholz caísse como ele imaginava que cairia, seria uma linha reta o movimento do alto da cabeça ao coração do vampiro.

E quase tudo aconteceu conforme o previsto.

A estaca acertou o coração de Hinterholz sem atravessá-lo. Seria preciso uma nova aplicação de força. Hector poderia simplesmente pisar na estaca, mas no momento em que apoiou o pé sobre ela, Hinterholz começou a rir.

5.

- Rir na cara da morte não significa bem isso, General – recompôs-se Hector evitando imprimir maior pressão do pé contra a estaca. – O que pode ser tão divertido ao atravessar o grande portal de acesso ao inferno? A perspectiva de encontrar a própria mãe?

Hinterholz não continha o riso.

- Tu, Hector. Teu ardil foi tão ingênuo que funcionou. Eu nunca presumiria um ato tão inocente vindo de um caçador tão renomado. Mas confesso que funcionou mesmo. Estou a um passo da morte, um passo do teu pé! – disse o vampiro em meio a novas risadas. – Só que não é a morte que me faz rir, mas a vida. A tua vida. Pois se pensas que tua missão acaba nesse confronto, ah, estás enganado, velho amigo. Muito enganado.

- Tu és o último, Hinterholz. Aquele a quem chamavam de General. Não há mais nenhum do teu clã, e eu mesmo aniquilei os restantes. Teu reinado e o dos teus acaba aqui. Nenhuma heresia contra a vida será cometida novamente em teu nome.

- É o que pensas? Desculpe-me atrapalhar teu discurso final, apesar de estar claro o quanto ele foi ensaiado. Mas eu consegui o que nenhum outro conseguiu. Eu gerei o Imortal. Eu dei vida ao eterno. Dei a imortalidade àquele que nenhuma estaca irá matar. E tu, Hector Szadkoski, serás morto pelas mãos dele, e ele estará rindo.

Hector tentaria arrancar mais informações do vampiro, mas Hinterholz, como soldado que não entrega a vida ao inimigo, arqueou o próprio tronco contra o pé do caçador, atravessando o coração com a estaca, terminando assim com uma caçada que ocupou vinte anos da família Szadkoski.